Tanto contra-tempo e sem tempo 18/02/2014

Um Gap Year é uma aventura. Numa aventura existem momentos bons, momentos menos bons, algumas peripécias… Curioso é quando acontece tudo num curto espaço de tempo. Em Laos foi assim.

Para sair do Vietname, comprámos um bilhete de autocarro desde Hanói até Luang Prabang, no norte de Laos. A viagem é bem conhecida pelos “mochileiros” que andam por estas paragens. A “viagem do inferno”, como é “carinhosamente” chamada, fez com que no fim achássemos que o nome fosse quase um eufemismo.

Partimos de Hanói por volta das 19h. Nós, instalados num confortável banco que se podia baixar para dormir melhor. Os nossos amigos Jack e Chloe, bem como mais 4 pessoas que viajaram naquele autocarro, não tiveram a mesma sorte. Dormiram no corredor que estava já almofadado para essas situações. Ao que parece, a empresa não tem qualquer problema em ver os seus clientes a viajar mais de 20 horas no corredor do autocarro.

Quando chegámos à fronteira, perto das 7h da manhã, fomos tratar de adquirir o visto de Laos. Sem qualquer problema, eu (André) consegui-o em cerca de 10 minutos. O caso do Hugo, foi diferente. Não quer isto dizer que tivesse existido algum problema de maior. Simplesmente o tempo de espera foi um pouco acima da média. Devido à demora, os funcionários da fronteira resolveram dar uma cerveja em lata como recompensa. Bela maneira de entrar no país(?).

Sabíamos de ante-mão que iríamos parar em Vientiane onde teríamos que apanhar outro autocarro. Após cerca de 20 horas, chegámos então à capital de Laos. Quando perguntámos ao condutor pelo nosso autocarro para Luang Prabang, com toda a sua indiferença respondeu “Eu não sei”. Alegava que a única responsabilidade dele era trazer-nos para Vientiane. O resto “Eu não sei”.

O que se seguiu, só visto. Uma discussão acesa com um indivíduo vietnamita cujo défice de simpatia e bom-senso era tremendo. Durante essa confusão, chegou mesmo a encostar a testa dele à minha (André). Não arredei pé. Continuei a gritar sem demonstrar um pingo de medo. Sentia-me valente, com a força de um super-herói. Inconsciente ou não, o que é certo é que após cerca de 20 horas a viajar de autocarro é extremamente difícil manter a calma, principalmente quando sabemos que estamos a ser burlados. Após mais de meia hora de troca de palavras em inglês, português e vietnamita, algumas mais simpáticas do que outras, conseguimos que o nosso “amigo” condutor nos desse dinheiro suficiente para viajar até ao nosso destino.

Após 12 horas num autocarro sem banco para dormir e numa estrada esburacada e cheia de curvas, chegamos por fim a Luang Prabang! Foi o primeiro local onde pudemos apreciar a beleza de Laos. Juntamente com os nossos amigos Jack e Chloe, alugámos uma mota e fomos visitar uma gruta e umas cascatas a cerca de 30 km do centro da cidade. Foi fantástico poder apreciar a paisagem durante esse percurso bem como os próprios locais em si. Montanhas imponentes cobertas de verde, cursos de água, calma e paz de espírito. Foi tudo isto que fomos descobrindo.

Certa noite, a “paz de espírito” que encontrámos transformou-se em medo e inquietação . Estávamos a jantar num restaurante do centro da cidade quando, via facebook, uma rapariga que estava instalada no mesmo hostel que nós envia uma mensagem ao Jack. Dizia: “um pequeno fogo começou junto do nosso hostel. Não é muito preocupante mas talvez seja melhor virem para cá.”. Pensámos que o que nos estava a dizer poderia ser uma brincadeira de mau gosto. De qualquer das formas, eu (André) e a Chloe deixámos o restaurante e fomos verificar o estado do incêndio. Após percorrermos metade do caminho começámos a ouvir a sirene dos carros dos bombeiros. Desatei a correr. Num ápice cheguei ao início da rua do nosso hostel e consegui ver as chamas ao longe. Uma multidão na rua que tínhamos visto quase deserta quando fomos jantar. Disse para a Chloe esperar por mim e fui até ao nosso dormitório para trazer os nossos pertences. Fi-lo porque não havia grande perigo, já que havia ainda um edifício a separar-nos do incêndio. Após várias entradas e saídas, consegui retirar quase tudo que era nosso e de alguns outros hóspedes. Pegámos em tudo e fomos dormir para o terraço de um hostel próximo. Não tivemos alternativa, uma vez que todos os outros albergues estavam totalmente preenchidos por chineses que ali estavam para comemorar a entrada no seu novo ano. No dia seguinte, de manhã, dirigimo-nos até ao nosso hostel e todos estavam a tomar o pequeno-almoço como se nada tivesse passado. O resultado do fogo foi um edifício destruído por completo, o que estava imediatamente a seguir ficou bastante danificado e aquele onde estávamos hospedados ficou apenas com umas janelas partidas. Um grande susto que, felizmente para nós, não passou apenas disso.

Após Luang Prabang rumámos até Vang Vieng, onde não ficámos indiferentes a toda a paisagem que nos rodeava. Era difícil fechar a boca quando olhávamos à nossa volta e só víamos um verde a tocar no céu. As montanhas pareciam cercar a cidade de beleza. O sol escondia-se ao fim do dia por detrás delas, proporcionando uma imagem fantástica, digna de postal. O rio, para além de via de comunicação, era também local de lazer. Durante o ano, milhares de turistas fazem a descida do mesmo quer seja de boia ou caiaque, na que é uma das maiores atrações turísticas daquele lugar. Com tudo isto, saímos de Vang Vieng com muita vontade de voltar.

Vientiane foi a última cidade que visitámos neste nosso terceiro país do sudeste asiático. A capital de Laos não nos deslumbrou tanto como os locais anteriormente visitados. Todavia, impressionou-nos pelo facto de ser uma cidade com bastante movimento mas onde uma certa calma pairava no ar. Era muito raro ouvir a buzina de um qualquer veículo. Comparada com qualquer lugar na Índia por exemplo, aquela cidade era o céu para os nossos ouvidos. Por falar em Índia… Descobrimos um restaurante indiano e constatámos que uma nostalgia se apoderava de nós. Quando tivemos o primeiro contacto com a comida indiana, nunca imaginámos que um dia nos soubesse tão bem ir a um dos seus restaurantes. No Salão de Cultura Nacional de Laos, que descobrimos por acaso, estava a decorrer um evento sobre cultura… indiana! Mais uma vez voltámos àquele país que nos marcou tanto. Assistimos a um musical que nos maravilhou! Sem falas, apenas com dança e música ao vivo, acompanhámos o espetáculo com as descrições, em inglês, do que se estava a passar. Uma peça sobre os deuses hindus que nos encantou. A música, por vezes estranha mas bela, as danças extremamente bem sincronizadas e o guarda-roupa rico fizeram daquele espetáculo um feliz achado.

Mais um país que nos marcou e que vai deixar saudades, tanto pelas pessoas como pelas magníficas paisagens. Sem darmos por ele, o tempo passa e o fim da nossa passagem por Laos chegou. Foram 15 dias repletos de aventuras que, felizmente, acabaram todas em bem.

A última etapa da nossa viagem acabou de começar. Tailândia é o novo e último país do nosso Gap Year. Esperemos que nos surpreenda, positivamente, tal qual todos os lugares por onde já passámos.

Até logo!

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One thought on “Tanto contra-tempo e sem tempo 18/02/2014

  1. Gostei muito, um texto bem escrito e muito emotivo. Obrigada por nos congratularem com os relatos dos momentos da vossa jornada.

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